Madre Maria José de Jesus - VIDA

MADRE MARIA JOSÉ DE JESUS (1882-1959)

Honorina de Abreu

No dia 18 de fevereiro de 1882, na cidade do Rio de janeiro, uma criança vem alegrar o lar do historiador cearense Capistrano de Abreu. Primogênita, ela terá

 quatro irmãos. A saúde da mãe, abalada pelo parto do último filho, não mais se recuperará; morre de febre puerperal, com a idade de apenas 33 anos.

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A família divide-se: em sua dor, Capistrano passa a viver sozinho, levando consigo, Adriano e Abril. Deixa a mais velha e os dois menores entregues à avó. Honorina receberá uma educação esmerada: literatura e arte, culinária e costura.

Em 1893 matricula-se no internato do Colégio Imaculada Conceição, no bairro do Botafogo, dirigido pelas Irmãs vicentinas. Ali terá seu primeiro vislumbre de vida religiosa, logo abafado. Sua inteligência brilhante é muito apreciada e seu progresso nos estudos é evidente.

A jovem é bela e elegante. Vaidosa, veste-se bem e brilha pelos dotes intelectuais. Com as primas, frequenta as festas da sociedade. Sua prática religiosa enfraquece. Tudo faz prever um futuro brilhante e uma família…

Um dia, em Petrópolis, Honorina participa de um baile com sua prima, provavelmente em 1902. E Deus acontece em sua vida. Conta a prima o ocorrido: “Estávamos no baile. De repente, Honorina quis voltar para casa. Algo de sobrenatural — estou convencida — passou-se em sua alma. Não aceitou mais nenhum convite. Rompeu com o mundo (…). Ela deve ter visto ou ouvido alguma coisa do Céu. Foi rápido”.

A jovem vaidosa e refinada dá lugar a uma pessoa apaixonada por Deus. Honorina passa a se aproximar diariamente da Eucaristia, a procurar os mais necessitados. Por fim, depõe os vestidos da moda para apresentar-se simples e austera, mas feliz, porque plena de Deus. No Rio, frequenta o Mosteiro da Ajuda, funda ali a Pia União das Filhas de Maria e, ao mesmo tempo, leciona na escola mantida pelo convento.

A partir de sua “conversão”, Honorina inicia a lenta subida rumo ao monte Carmelo. Desde 1906, deseja ser carmelita. O pai agnóstico, procura contemporizar, alegando o estado de saúde da avó querida.

Enquanto espera, paciente, a hora de Deus, Honorina não fica inativa. Cerca a velha avó de atenções reconhecidas; para que não fique sozinha, consegue que o irmão venha morar com ela. Em 1909 traduz do latim a Imitação de Cristo, que será publicada no ano seguinte. E prossegue incansável na caridade operosa.honorina 002

No dia 10 de janeiro de 1911, vestida de noiva, ingressa solenemente no Convento de Santa Teresa. O pai, do lado de fora, a abraça… e nunca mais porá o pé no Carmelo.

Honorina desaparece; surge a Irmã Maria Jose de Jesus. No Noviciado, mostra desde cedo a seriedade de sua vocação, tornando-se carmelita de corpo e alma, “filha genuína de Sta. Teresa, no espírito e na ciência da oração”, como lhe escreve um dia a Mestra de Noviças.

No dia 19 de março de 1911, recebe o Hábito carmelitano, iniciando seu tempo de formação. Em 21 de março de 1912, emite sua Profissão Perpétua. Logo depois, é nomeada “Anjo” do Noviciado, isto é, ajudante da Mestra de Noviças. Maria José de Jesus iniciará então a sua longa trajetória de mãe e formadora de carmelitas, que durará até a morte. No dia 25 de março de 1915, faz sua Profissão Solene.

Em 21 de abril de 1917, o Capítulo da comunidade elege a Madre Maria José de Jesus como Priora do Carmelo de Santa Teresa. Ela contava apenas 35 anos de idade e 6 de vida religiosa!

0 Carmelo Santa Teresa — o primeiro do Brasil — tem uma longa história: fundado por jovens desejosas de servir a Deus, guiadas por aquela que seria a Ir. Jacinta de São José, não teve em seus primórdios uma carmelita descalça vinda de outro mosteiro. Os costumes monásticos foram introduzidos pelas informações obtidas junto aos carmelos. Floresceu, porém, em virtudes e santidade. Com as leis repressoras do Segundo Império e a proibição de receber noviças de 1885, porém, o Convento correu o risco de se extinguir. Em 1892 contava apenas com 6 professas quando, finalmente, pôde receber novas noviças, vindas em sua maioria do interior, jovens ardorosas, mas simples. Foi esta a comunidade que Madre Maria José encontrou, ao iniciar seu priorado: havia fervor religioso, mas as vicissitudes históricas tinham produzido situações nem sempre condizentes com a Reforma teresiana.

Com a sua sensibilidade carmelitana, procurou inicialmente informar-se detalhadamente junto ao Carmelo de São José, de Ávila, o primeiro fundado por Santa Teresa de jesus, acerca da vida conventual da Ordem e de todos os costumes monásticos originais. Informações logo completadas com consultas a outros mosteiros da Espanha e de Portugal. E, a seguir, com paciência e firmeza, Madre Maria José foi reformando costumes e situações existentes, dando uma verdadeira fisionomia carmelitana ao antigo Convento. Não lhe faltaram dificuldades e dissabores, compreensíveis em uma obra de restauração. Mas em tudo soube ser magnânima, paciente e perseverante.

No mês de abril de 1920, é reeleita priora pela maioria dos votos, mas as Constituições da época não permitiam reeleição. Deixando, portanto, o ofício de Priora, Madre Maria José permanece como Mestra de Noviças.

Madre Maria José é trabalhada por Deus no sofrimento. Sua saúde ocasiona-lhe constantes sofrimentos físicos e espirituais. No físico, além da erisipela, os ataques de asma tornam-se crônicos. Há meses em que deve se recolher na sua cela, distante dos atos comunitários, participando unicamente da Santa Missa diária. A doença física é ocasião de sofrimentos espirituais que afinam seu relacionamento com Deus.me maria jose 004

No dia 21 de abril de 1923, é eleita Priora, pela segunda vez. A cruz torna-se ainda mais pesada, pois a Madre Maria José encontra-se seriamente enferma.

Este triênio é marcado especialmente pelos grandes trabalhos de reforma do prédio do convento, construído em 1752, já iniciados em 1921 e que duraram até setembro de 1924. As obras encerram-se com a celebração solene do 3.º centenário da canonização de Santa Teresa de jesus, a grande Reformadora do Carmelo, festejada em 15 de outubro de 1924.

Aproximando-se as eleições de abril de 1926, as Irmãs queriam elegê-la novamente, mas o Arcebispo conseguiu convencê-las, saindo então eleita a Madre Maria Evangelista da Assunção. Maria José a substitui no cargo de Mestra de Noviças.

Mas a grande dor deste período é, sem dúvida, a morte do pai. Desde que entrou para o Carmelo, era preocupação fundamental da Madre Maria José a reconciliação de seu pai com a Igreja. Para isso rezava e pedia que rezassem os seus amigos, nunca deixou de insistir junto ao pai em cartas admiráveis, repassadas de amor filial e de zelo apostólico. Ao aproximar-se o fim, redobraram as orações e os esforços da filha. Encarregou a Irmã Mathilde de tentar a conversão do pai, enviou seu grande amigo Dr. Fonseca, médico do Carmelo, com o mesmo objetivo. Ambos se encontravam junto a seu leito, na noite de 12 para 13 de agosto de 1927. Mas todos os esforços foram em vão. Capistrano morreu na madrugada do dia 13, deixando para “mais tarde” sua resposta se aceitava ou não a presença de um sacerdote.

No início de novo triênio, em abril de 1929, a comunidade elege Madre Maria José de Jesus como Priora do Santa Teresa, que conserva o cargo de Mestra das Noviças. Será o triênio marcado por duas fundações.

A tanta dedicação correspondia o amor filial e sincero das carmelitas. Assim, em abril de 1932, é reeleita Priora para um segundo triênio, sempre continuando como Mestra de Noviças. Madre Maria José era contrária às reeleições, inspirando-se em Santa Teresa. Só as aceitou por obediência, quando as Constituições carmelitanas passaram a permitir um segundo triênio.

Em agosto de 1932, sofre de um quisto no joelho que exige uma operação cirúrgica. Em 21 anos de Clausura, é a primeira que deixa seu querido Santa Teresa, para uma internação na Casa de Saúde São José, no Bairro do Botafogo. Lá permanece de 23 do agosto a 10 de outubro. Revê parentes e amigos, mas seu coração permanece entre as paredes de seu Convento, em meio às suas filhas, como o demonstram as cartas que diariamente enviava ao Carmelo.

O Ano Santo Jubilar de 1933, celebrando a 19º centenário da Redenção, marcará a Madre Maria José com o ardor da caridade divina: seu coração expande-se no amor, alimentado pela contemplação da Cruz.

Após dois triênios sucessivos como Priora, Madre Maria José deixa o cargo nas eleições de abril de 1935, permanecendo, porém, como Mestra de Noviças.

Mas não aproveita a pausa para repousar. Em maio de 1936, pede ao Cardeal Dom Sebastião Leme, Arcebispo da Rio de Janeiro e Superior do Convento, a permissão para começar a tradução das Obras de Santa Teresa de Jesus, trabalho que a ocupará até o último ano de sua vida. “Vendida à Santa Madre” (cf. Memorial.191), como ela mesmo costumava dizer, trabalhará sentada no chão, com uma tábua grande sobre os joelhos.

Em fins de 1936, uma epidemia de gripe atinge a comunidade carmelitana de Santa Teresa. Madre Maria José, também atingida, desdobrou-se atendendo às enfermas, ajudando a Irmã enfermeira. Pouco depois, o esgotamento torna-se visível: febre alta e exaustão física levam à dispensa do cargo de Mestra e a um repouso absoluta na enfermaria. Em um poema descreve seu sofrimento e a intercessão de Maria que lhe traz novamente a paz do coração.

Em 21 de março de 1937, a comunidade organiza, sem que ela soubesse, e com a participação do Cardeal Dom Sebastião Leme, a celebração de seu jubileu de prata de profissão religiosa. Preparou-se para a data com um retiro de 10 dias.

Em 21 de abril de 1938, início de novo triênio, a comunidade elege Madre Maria José como Priora. A decisão foi unânime. Ei-la novamente com o cajado do Bom Pastor, a guiar o seu rebanho.

No mês de junho deste mesmo ano, o Convento é tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Madre Maria José informou-se sobre as consequências e só se tranquilizou quando soube que seria respeitada a Clausura. Sua carta ao Diretor daquela instituição estatal será comentada com elogios em jornais da cidade por Carlos Drummond de Andrade.

Ao final de 1940 encontra-se novamente exausta; Dom Leme ordena-lhe dois meses de repouso absoluto, permanecendo na enfermaria livre de todas as obrigações. Durante este período, rezando no “Jardim do Divino”, tem uma experiência intensa da presença do Espírito Santo que a afervora.

Em abril de 1941 é novamente eleita Priora com a unanimidade dos votos da comunidade. Madre Maria José pede para renunciar, apresenta seu estado de saúde, alega a falta de exemplo de observância regular que seus achaques provocam. Dom Leme é inabalável: “Arrume-se com Deus, também tenho pena da Comunidade” (Cf. Memorial, 202). Ela tem de se inclinar à obediência.

Os últimos meses deste seu sexto Priorado serão ocupados por obras no Interior do Convento, para conservação e restauração do velho prédio. Também assim manifestava seu amor pela Santa Teresa.

As eleições de abril de 1944 aliviam a Madre Maria José do peso do Priorado, deixando-a, porém, como Mestra de Noviças. Mas ao invés do repouso merecido, os acontecimentos levam-na a seguir mais de perto os passos da Reformadora do Carmelo, tornando-se fundadora.

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Naquele ano, a Irmã Maria Luísa da Trindade transforma em realidade um seu sonho antigo: a fundação de um Carmelo em Teresópolis, RJ. Juntamente com a Madre Maria Evangelista, pretende levar no grupo fundador a Madre Maria José e obtém para isso a permissão do Cardeal Dom Jaime Câmara. Ei-la fundadora, com 62 anos de idade! Única condição, posta pelo Arcebispo da Rio, em de que sua ida fosse temporária, apenas por um ano, findo o qual deveria regressar para o Santa Teresa.

Foi com grande sofrimento, mas com generosidade, que se preparou para deixar o convento amado e suas filhas, todas transtornadas com a triste notícia.

Como sua santa Mãe Teresa de Jesus, a passagem de Madre Maria José pelos Carmelos foi uma pregação constante, um testemunho silencioso, mas eloquente. Seu próprio ser era um exemplo vivo.

Finalmente, chegou o dia da fundação oficial do Carmelo de Teresópolis, em 3 de junho de 1945. Ao deixar a clausura do Santa Teresa, Madre Maria José levava nas mãos a imagem do Senhor Menino, chamado “O Fundador” por ter sido levado pela Madre Jacinta na fundação do Santa Teresa em 1752. Na ocasião, foi fotografada — uma das raras fotografias que consentiu fossem feitas durante a sua vida — ladeada por seu irmão Adriano, a esposa e as filhas.

No novo Carmelo foi de uma dedicação sem par em meio aos grandes obstáculos que sempre acompanham as fundações. Além disso, a saúde das fundadoras e das primeiras postulantes deixou muito a desejar, inclusive a Madre Maria Evangelista teve de se ausentar por longo tempo, para tratamento de saúde, caindo tudo sobre os seus ombros.

Regressou ao seu querido convento de Santa Teresa no dia 4 de junho de 1946, retomando logo a tradução das Obras de Santa Teresa, então já no 5º volume. Neste mesmo ano, segue com orações e conselhos a sua sobrinha Isa, que se torna fundadora de um Instituto religioso, as Carmelitas Servas dos Pobres, reconhecida como Congregação de direito diocesano em 1950. Escolheu para a sobrinha o nome religioso de Irmã Maria Teresa do Espírito Santo.

As eleições de abril de 1947 fazem novamente de Madre Maria José priora do Convento de Santa Teresa. Será um triênio de muito sofrimento, provocado sobretudo pelas enfermidades na comunidade. Sua própria saúde começa a declinar definitivamente a partir de 1947. E, apesar disso, continua o fatigoso trabalho da tradução das Obras de Santa Teresa com suas revisões intermináveis. Em tudo e apesar de tudo, vive imersa no Amor.

No dia 13 de novembro de 1949, visita o Carmelo o Prepósito Geral da Ordem, Fr. Silvério de Santa Teresa, o grande estudioso e historiador da Santa Fundadora.

Em dezembro daquele mesmo ano a saúde da Madre exige um tratamento mais sério. Desta feita eram os pés, atingidos pela artrose que provoca dores terríveis e a perda de equilíbrio. Por insistência das irmãs e por obediência ao Cardeal D. Jaime Câmara, Madre Maria José de Jesus aceita ser internada na Casa de Saúde São Zacarias para tratamento ortopédico, lá permanecendo de 10 a 23 de dezembro.

De agora em diante, será obrigada a usar nas alpargatas teresianas uma palmilha ortopédica. E não poderá mais abandonar um bastão, pobre e simples, que lhe servirá de apoio nas caminhadas da sua jornada de sacrifício e de amor. Ela mesma se descreverá em carta: “Estou uma pobre velha, esquecida, vagarosa, encurvada e torta”.

Ao final do seu sétimo priorado, alquebrada e envelhecida, Madre Maria José começa a pedir às filhas que a livrem daquele peso. Intercede junto ao Cardeal Dom Jaime Câmara, quer aprofundar-se no silêncio e no anonimato, preparando-se para o grande e definitivo encontro com o Amor. Alcança seu objetivo, pois nas eleições de abril de 1950 a comunidade escolhe outra Priora, deixando-a apenas como Mestra de Noviças.

Seu amor ao Carmelo teresiano acende-se de zelo por ocasião da publicação da Constituição Apostólica Sponsa Christi, do Papa Pio XII. Parece ser intenção do Pontífice ou de seus imediatos conselheiros algumas modificações nas Ordens contemplativas que a Madre entendeu distanciadas da fisionomia específica do Carmelo Descalço, tal como concebido por Santa Teresa de Jesus: obras de apostolado ativo, estruturas de governo semelhantes aos das congregações modernas, centralizadas, noviciados nacionais etc. Embora declarando-se totalmente disposta à obediência cega, caso o Papa o ordenasse, Madre Maria José busca de todas as maneiras manifestar respeitosa, mas firmemente, o seu modo de pensar. É exemplar a carta que escreve ao Cardeal carmelita Adeodato Piazza, em 17-6-1952. O mesmo amor à Reforma teresiana manifesta-se na carta que escreve de 30-1-1953 ao Diretor do Patrimônio Histórico, de quem o Santa Teresa dependia, enquanto monumento histórico nacional.

O amor das filhas elege-a Priora, nas eleições de abril de 1953, apesar de seus insistentes pedidos. A saúde é muito frágil, o coração dá mostras de cansaço. E, apesar disso, ela será toda disponibilidade e serviço.

No primeiro ano de priorado, inicia a tradução das Cartas de Santa Teresa, os últimos volumes das Obras. Será o trabalho mais sofrido, não só pelas dificuldades especiais do próprio texto, mas também pelo seu esgotamento. Trabalhará nisso até o último ano de sua vida.

Sua saúde declina vertiginosamente: totalmente encurvada, o coração enfraquecido, os achaques da idade não impedem que seja tudo para todas. Incansável no atendimento às irmãs, chega ao heroísmo na atenção dispensada às muitas idosas e enfermas da comunidade. E de uma dedicação incansável que nada poupa a si mesma.

Em abril de 1956, completa 25 anos de priorado (contado de Teresópolis). Às escondidas, a comunidade prepara-lhe uma festa, com a participação do Cardeal Dom Jaime Câmara. A sua maternidade espiritual atinge a plenitude.

É assim que chegará às eleições de 1956, de onde sairá como Priora, pela nona vez. Pouco adiantarão seus apelos, alegando sua saúde decadente. “Vontade de Deus”, dir-lhe-á o Cardeal. E ela, obediente, se submete: “Acho que é covardia da minha parte... O Santo Padre é mais velho do que eu e tem de governar a Igreja, que é muito mais que um Carmelo!” (Memorial, 293).

É o começo do calvário. A visão diminuída, o corpo encurvado que necessitava de dois bastões para poder mover-se, as foças quebradas. Soma-se a dor física o sofrimento moral: a grande quantidade de idosas e enfermas toldava-lhe a visão do futuro do Carmelo. Nuvens se adensam em sua alma, prenúncio da noite escura.

A partir de setembro de 1957 as insônias tornam-se permanentes: noites inteiras em claro produzem fadiga e mal-estar.

O coração dá claros sinais de crise; as gripes se torna se tornam frequentes e fortes. Tudo isso acaba gerando uma anemia e fraqueza geral.

Em 15 de setembro de 1958, é chamado o médico, que aconselha exames mais detalhados. No dia 28, o Cardeal, vindo ao Carmelo, insiste para que a Madre vá para o hospital. Ela obedece. De 22 a 31 de outubro permanece no Hospital da Beneficência Portuguesa, de onde escreve diariamente para a sua Comunidade. O diagnóstico não deixa margem a dúvidas: seu estado é grave, o coração mortalmente ferido.

O tratamento para o coração irrita-lhe o estômago, que passa a rejeitar o alimento, enfraquecendo-a ainda mais. Madre Maria José começa a palmilhar, passo a passo, a sua Via Dolorosa.

Ao retornar da Beneficência Portuguesa, no dia 31 de outubro de 1958, a comunidade percebe em Madre Maria José um acentuar-se da expressão de tristeza que ultimamente velava seu rosto. “Quando olho para mim, só acho faltas, e a mim atribuo todas as faltas alheias” (Bilhete a Ir. Maria da Conceição Chaves, Memorial, 315). Começou a olhar para o seu passado, considerando a vaidade juvenil como um pecado gravíssimo e lamentando-se por não ter sido boa religiosa, boa superiora.

Julgando tratar-se de um esgotamento, a Subpriora chamou um psiquiatra católico, que a atendeu no locutório, receitando-lhe calmantes. Estes não a ajudaram, antes, produziram efeitos contrários. Excitando-a ainda mais em sua convicção de pecadora sem perdão!me maria jose 006

No dia 9 de dezembro, piorando sempre mais seu estado de abatimento físico e sua angústia emocional, foi levada para a Clínica Santa Juliana, das Irmãs Servas de Maria Reparadora, em estado grave. Ao sair da Clausura, dirigiu-se pela última vez às filhas: “Nossa Senhora guardará todas!”

Na clínica, continuará a mergulhar sempre mais profundamente na sua noite, trabalhada pelo Amor que preparava o Encontro definitivo. Em nenhum momento, uma única reação de revolta ou de protesto, por mínima que fosse. Continuou a ser heroica no seu amor a Deus, abraçando aquela que entendia ser Sua santa vontade: a sua condenação! Realizava, assim, quanto descreve o Doutor Místico: “E assim a alma, aqui nesta purificação, vê que quer bem a Deus, e que daria mil vidas por ele (o que é bem verdade, porque no meio destes trabalhos as almas amam a Deus com todas as suas forças); contudo, não sente alívio algum, e sim ainda mais sofrimento. Pois, amando-O tanto, e não pondo em outra coisa a sua solicitude senão em Deus, vê-se ao mesmo tempo tão miserável, que não se pode persuadir do amor de Deus por ela” (Noite escura, Liv. II, cap. 7, 7).

18 de dezembro: é submetida a insulinoterapia.

Em 28 de fevereiro: o Convento recebe comunicação do Sanatório de que, “na última terça-feira”, tinham cessado com a insulinoterapia porque a Madre tivera crise convulsiva durante o tratamento.

No dia 11 de março de 1959, a enfermeira não veio buscá-la para a missa, porque o elevador estava com defeito. Chegando ao seu quarto, a Madre logo perguntou: “Por que não me levou para a missa? ” Pouco depois, ela fazia a Deus o dom de sua vida, numa síncope cardíaca fulminante. Consumava-se seu holocausto.

Fonte: A Voz do Silêncio - Correspondência Me Maria José de Jesus

 

 

 

 

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