Infância até o Carmelo

 


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Os pais de Santa Teresinha foram Luís e Zélia Martin, que se casaram em 1858. Ambos haviam aspirado entrar para a vida religiosa. De caráter contemplativo, mais silencioso, Luís, nascido em Bordeaux, França, aos 22 de agosto de 1823 sonhara em ser monge cartuxo. Não foi aceito porque não sabia latim. Voltou a Alençon, onde residia com os pais, e aí montou uma relojoaria. Zélia tentou ser religiosa visitandina, mas a Superiora logo intuiu que a jovem não era chamada à vida religiosa. Ambos foram levados a desistir da vocação religiosa. Após o casamento, permaneceram convivendo como se fossem monges. Um confessor convenceu Zélia a ter filhos e, assim preparar almas para o céu. 

Não eram pessoas muito alegres. Luís tem um temperamento dado à melancolia: seu gosto é retirar-se para uma casinhola à beira d’água, apartada de Alençon, cidade onde moram e onde ele é relojoeiro. Zélia afirmará que sua infância, cercada de pais severos, foi “triste como uma mortalha”. Antes de morrer, ela escreveria a seu irmão: “É forçoso renunciar a tudo! Eu nunca tive prazer algum na minha vida”.

 

Luís e Zélia vivem profundamente a espiritualidade católica de sua época, que lhes faz ver a vida terrestre e a história como um momento penoso a atravessar, antes de alcançar o céu. Eles não acreditam na felicidade; e a prosperidade parece-lhes um mau sinal.

O casal vive na prosperidade. Não tanto da parte de Luís, mas da parte de Zélia. Alençon é, na França, a capital da confecção de rendas; Zélia cursara a Escola de rendeiras e, aos 22 anos, estabelecera-se por conta própria. Ao casar, havia cinco anos que fabricava rendas. O seu negócio prosperava a olhos vistos; o negócio de Luís era algo mais do que estagnante. Não demora em desistir da relojoaria e pôr-se a serviço da esposa.

Eis pois, como era o casal Martin: ele, um sonhador austero e melancólico. Ela, uma pessoa angustiada, que afogava na atividade as próprias ansiedades, pois o seu desejo era que cada uma das filhas tivesse um destino feliz, que todas tivessem um dote à altura. Quando Teresa nasceu, no dia 2 de janeiro de 1873, Maria, a primogênita das meninas Martin, preferida de Luís, tem doze anos. Paulina, a segunda filha, é a preferida de Zélia, na qual a mãe vê seu próprio retrato. A terceira, Lêonia, não é morena como as precedentes, mas loura de olhos azuis, todavia, menos bonita do que as outras. Entre ela e sua mãe não tardou a criar-se um clima de antipatia: “Ela não me fará tanta honra quanto as outras”, dizia Zélia. De fato, Leônia tem saúde frágil, caráter difícil e uma inteligência acima da mediana.

Celina tem quatro anos mais do que Teresa. Dotada duma extraordinária vivacidade. Seu pai a denomina “a intrépida”. Breve, Teresa seria a companheira inseparável de Celina. Celina com quem se parece e da qual não pode prescindir.

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Teresa, quando nasce, é uma criança frágil. Desde o nascimento, exige cuidados, pois é vítima de crises de enterites. Confia-se então Teresa a uma ama-de-leite, chamada Rosa Taillé e que todos chamam “Rosinha”; a ama, que tem quatro filhos, mora em Semallé, a 8 kms de Alençon, num pequeno sítio com uma só vaca. Eis, pois, Teresa fora da casa paterna, com apenas seis meses de vida, nas mãos de uma ama-de-leite; e sem demora, ela recupera as forças, engorda, dá mostras de uma saúde maravilhosa. Quando a vêm mostrar aos seus, em Alençon, Teresinha repele vigorosamente a mãe, debate-se, solta gritos. Destarte, os quinze primeiros meses da vida de Teresa transcorrem no campo, numa fazendinha, em meio às pradarias.

Volta para casa em abril de 1874. Faz três meses que já caminha. Agora, é-lhe vedado correr em liberdade, mora dentro de uma casa onde é objeto de constante desvelo dos pais, das quatro irmãs, das operárias de sua mãe. Aliás, esta se esmera tanto mais por mimá-la, porque censura a si mesma o não ter podido alimentá-la pessoalmente. Por seu turno, Teresa, a que chegou por último, exige o primeiro lugar, exige tudo. Colérica, obstinada, impaciente, é dotada de uma vitalidade a toda prova.

A Sra. Martin trabalha com tanto afinco por ser uma mãe angustiada com o futuro das filhas; tanto mais angustiada por ter sentido uma dor no seio desde o início de 1865, primeiro sintoma de um câncer que a mataria. Com o passar dos anos, ela se transforma numa pessoa obcecada pela idéia da morte. Em agosto de 1876, Teresa tem três anos e meio. O médico anuncia à Sra. Martin que ela tem um câncer incurável. Voltando para casa, não pode evitar de dar a má notícia. Sabendo estar condenada, a Sra. Martin dá suas recomendações; a Isidoro, seu irmão, e sua esposa, ela confia as filhas. O Sr. Martin fecha-se no próprio sofrimento. O mal conquista inexoravelmente sua esposa. No dia 26 de agosto, dão-lhe a extrema-unção, cerimônia que impressiona profundamente Teresa. Zélia falece no dia 27 de agosto, à meia-noite. Dia 28, pela manhã, Teresa é despertada pelo pai que a toma nos braços e a carrega até o quarto onde jaz a falecida. “Vem beijar uma última vez a tua mãezinha”.

A Sra. Martin quisera que, depois de sua morte, o marido e as filhas fossem morar em Lisieux, onde o irmão Isidoro é farmacêutico. Ela confia neste irmão, na sua energia. Receia que o marido não seja capaz, com seu temperamento sonhador, de ocupar-se cabalmente das cinco filhas. Os amigos e conhecidos de Luís, bem como sua mãe que ali morava, dissuadiram-no de abandonar Alençon. Mas Isidoro Guérin lembra ao cunhado o desejo da falecida; sem mais delongas, pôs-se à procura duma moradia para Teresa, seu pai e suas irmãs. Doze dias depois da morte da Sra. Martin, o pai cumpriu o desejo da falecida: descobrir em Lisieux uma casa com jardim.

A 15 de novembro de 1877, depois duma última visita ao cemitério de Alençon, Luís Martin e as filhas partem para Lisieux. Esta cidade está situada no coração da Normandia. É uma cidade pitoresca: naquela época, ruas inteiras de casas de madeira emprestavam-lhe um aspecto medieval encantador. A pedido do cunhado, o Sr. Guérin encontrou em Lisieux, próxima à sua própria residência, uma casa encantadora dominada por um mirante, conhecida como “Os Buissonnets”. Teresa morará mais de dez anos nesse ambiente aprazível.

Para a caçula convergem as ternuras das irmãs mais velhas, que se fizeram suas “mãezinhas”; e, especialmente, as do pai, seu “rei querido”, que demonstra um “amor verdadeiramente maternal”.

No início de janeiro de 1878, Leônia e Celina são entregues às beneditinas da cidade. Paulina desdobra-se, então, para a pequena Teresa, em professora firme e afetuosa. A aluna se mostra muito aplicada em aprender a escrever sozinha antes dos 7 anos. Em outubro de 1881, quando está com oito anos e meio, Teresa ingressa como semi-interna na abadia das beneditinas. Porém, a menina mimada e solitária dos Buissonnnets não consegue integrar-se ao grupo. Apesar dos bons resultados escolares, e, sobretudo, do afeto das religiosas, Teresa designará esses cinco anos de internato como “os mais tristes anos da sua vida”.

Nessa época, seu grande sonho era ir um dia, com Paulina, “para um deserto remoto”. De fato, Paulina, que está com 21 anos, dirige o olhar para o “deserto” do Carmelo. Sua partida é rapidamente decidida. Teresa fica sabendo, com surpresa, durante o verão de 1882. O golpe é brutal. Paulina explica-lhe o que é o Carmelo e Teresa pensa com seus botões que o Carmelo é o “deserto” onde Deus quer que ela vá se esconder. Ela o diz a Paulina e, algum tempo depois, à própria priora do Carmelo.

Não somente Paulina a abandona para entrar no Carmelo, mas também muda o seu modo de tratar Teresa, esquivando-se a qualquer contato direto com ela. Furta-se a continuar servindo-lhe de mãe. Mais tarde, Teresa contaria: “Confesso que os sofrimentos que tinham precedido a sua entrada nada foram em comparação com os que se lhe seguiram. Todas as quintas-feiras nós íamos ‘em família’ ao Carmelo e eu, acostumada que estava a abrir-lhe o meu coração de par em par em entretenimentos familiares, só a muito custo conseguia dois ou três minutos no fim da entrevista no locutório: naturalmente, passava-os chorando e retiravam-me com o coração dilacerado…”. Era uma segunda morte: “Para mim, Paulina está perdida!”.

A reação de Teresa não poderia ser pior. Adoece, procurando provocar atenções maternais da sua tia Guérin e da irmã, Maria, a quem chama incessantemente: “Mamãe, mamãe”, forçando-a a permanecer junto dela.

No dia 23 de março de 1883, o Sr. Martin leva Maria e Leônia a Paris para as cerimônias da Semana Santa. Já aflita, entregue a seu tio e sua tia, Teresa não consegue superar esta breve separação. Na tarde da Páscoa, 25 de março, o Sr. Guérin, sem se dar conta, completa a tragédia quando evoca a lembrança da Sra. Martin. Algumas horas mais tarde, a menina é tomada por tremores nervosos aos quais sucedem crises de medo e alucinações. Chama-se com urgência o Sr. Martin e suas filhas. Maria instala-se à cabeceira da menina, na casa dos Guérin, pois ela não pode ser transportada.

O desejo de abraçar Pauline, mais uma vez, por ocasião da tomada de hábito, provoca uma melhora, em 6 de abril. No dia seguinte, há recaída, nos Buissonnets. Manifestações desoladoras multiplicam-se. A “estranha doença” desnorteia o Dr. Notta, que, por um momento, fala de “dança de São Guido”, mas exclui formalmente a histeria.

Após cinco semanas de angústias, a fé da família Martin consegue finalmente a cura da doença diante da qual a ciência fora impotente. No domingo, 13 de maio de 1883, dia de Pentecostes, a menina sente-se repentinamente curada pelo “encantador sorriso da Santíssima Virgem”.

Poder-se-ia julgar que a consequência de tal evento fosse apaziguar profundamente Teresa. Na realidade, pôs-se a perguntar a si mesma se tudo aquilo não fora inventado por ela. Começou a sofrer de enxaquecas. Em maio de 1885, durante o retiro preparatório à comunhão solene, um sermão frenético dum padre que pregava sobre o medo do inferno fez despertar nela o que denominou “a doença terrível dos escrúpulos”, doença esta que só findaria no Natal de 1886: “É preciso ter passado por este martírio para ter dele uma justa compreensão: ser-me-ia impossível dizer tudo o que eu sofri durante um ano e meio… Todos os meus pensamentos e ações as mais triviais tornavam-se-me causa de perturbação.”

No Natal de 1886, Teresa é ainda uma criança, que retorna da missa do galo toda apressada para procurar seus presentes. Mas Luís Martin está farto dessas atitudes infantis. Ela conta: “Enfadou-se ao ver meus sapatos na lareira e disse as seguintes palavras, que me transpassaram o coração: ” Afinal, ainda bem que este é o último ano!” Teresa dá-se conta de que, cedo ou tarde, precisará renunciar à infância, abrir mão de todas as criancices. Chama este Natal de “Noite de luz”, “Noite da minha conversão”, quando deixa de lado os “defeitos da infância”. Insistirá muito na importância desta noite de Natal: “Desde esta noite abençoada, eu não fui vencida em nenhum combate, pelo contrário, caminhei de vitória em vitória”. O que ela recebe é um Dom de força e de coragem.

No dia de Pentecostes de 1887, seis meses depois de sua conversão, Teresa comunica ao pai que quer entrar para o Carmelo. Mas tem apenas 14 anos! O pai abençoa sua vocação e a conduz ao bispo de Bayeux. O vigário da paróquia de Saint-Jacques, superior canônico do Carmelo, nem sequer aceitava falar de tamanha loucura. E é a este padre que Mons. Hugonin remete a questão de Teresa.

O Sr. Luís, que tanto gostava de peregrinações, resolveu levar Teresa a Roma e sobretudo permitiu à filha falar de sua vocação ao Papa para conseguir autorização para ingressar no Carmelo aos 14 anos. Na audiência do Papa, a 20 de novembro de 1887, Teresa fez o seu pedido. Leão XIII deixa nas mãos dos Superiores a decisão. Na realidade, quem tinha a chave de sua entrada para o Carmelo era Mons. Hugonin. Ele dissera que lhe daria a resposta por escrito. Começa para Teresa uma longa espera. A resposta chegou a 28 de dezembro: o bispo escreve à priora do Carmelo de Lisieux confiando-lhe a decisão. Madre Maria de Gonzaga comunica esta resposta a Teresa no dia 1º de janeiro, véspera dos seus quinze anos.

Santa Teresa de Jesus

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